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A criatura do cemitério
Otto voltava do casamento de um amigo. Havia deixado o clube onde ocorrera a festa de cerimônia para ir dormir na casa da namorada. Cíntia, sua namorada, estava com dores, por esse motivo não acompanhou Otto na festa daquele dia. Minutos antes de Otto deixar a festa, Cíntia havia lhe mandado mensagem dizendo que estava melhor e que seus pais haviam acabado de sair em viagem e que ela havia contado a eles que, Otto ficaria com ela na casa até eles voltarem de viagem, tranquilizando-os. Os pais de Cíntia adoravam Otto. Tinham grande apreço e carinho pelo garoto. Cíntia havia dito certa vez para Otto, o quanto tinha medo de ficar sozinha em casa. Sempre que seus pais viajavam sem ela, ela chamava uma amiga, uma colega da faculdade ou sua prima Vera, que morava na casa ao lado, para passar com ela os dias que seus pais estariam fora. Cíntia não tinha coragem de ficar sozinha em casa, nem quando seus pais saiam para irem ao supermercado ou à padaria comprar pão. Sempre que isso acontece, Cíntia vai junto com eles ou fica em casa, na companhia de alguém.
Cíntia realmente estava muito contente por Otto poder passar as noites e os demais dias com ela, até seus pais voltarem de viagem. Cintia não havia viajado com seus pais por ser uma viagem para um retiro espiritual a qual, Cíntia não fazia parte. Na verdade, era apenas para pessoas acima de trinta anos.
Cíntia, agora estava com dezoito anos. Mesma idade de Otto. Cíntia era mais velha com diferença de dois meses. Cíntia nascera em fevereiro e Otto em abril. Otto conhecera Cíntia na escola, ainda quando eles tinham treze anos. Foram desde esse tempo inseparáveis. Eram amigos de tudo dividir. Tudo segredar. Eram felizes na companhia um do outro desde o início da adolescência. Além de terem se tornados grandes amigos, quando completaram dezoito anos começaram o namoro. Muito se amavam. Para os pais de Cíntia, como para os pais de Otto, o fato de eles virem a revelar o desejo de namorarem, foi bastante óbvio e previsível. Faziam uma dupla de namorados de dar inveja. Todos que os viam juntos, diziam a mesma coisa: “formam um casal lindo! Nasceram um para o outro.” Cíntia e Otto, achavam tudo aquilo legal e às vezes engraçado. Mas sabiam que no fundo as pessoas tinham razão. Eles muito se amavam e gostavam de acreditar que o destino ou o universo, para eles tanto fazia, tinham desde muito tempo, arquitetado seus caminhos para que eles se encontrassem e desse muito certo, como havia dado até ali, naquele momento.
Depois da mensagem de Cíntia, Otto, havia deixado as festividades do amigo e estava indo ao encontro da namorada. Faltavam alguns minutos para os ponteiros do relógio se cruzarem e marcarem o início de um novo amanhã. Otto estava passando de frente ao cemitério municipal. Era o maior da cidade e o mais antigo. Ali estava enterrado vários dos entes queridos de Otto, como também dois amigos que haviam se despedido desse planeta numa tragédia de carro, que os vitimou junto de seus pais. Apesar do cemitério levar a importância de ser o mas espaçoso e mais antigo da cidade, não conseguia ter prestígio aos olhos dos gestores públicos da cidade. O cemitério estava em total abandono. Um desrespeito aos parentes e os seus que ali foram enterrados, por parte da administração pública. O mato estava tomando conta do lugar. Os túmulos mais bem cuidados, eram assim, por os falecidos terem parentes ainda vivos que se importavam com eles, mesmo depois de mortos, e mantinha as lápides em melhor estado de conservação. Otto gostava de cemitérios. Quando resolvia trazer flores para os seus, ali enterrados, passava um tempo ali no aconchego do silêncio que só aquele lugar oferecia. As horas que passava em companhia dos túmulos ou então, como imaginava Otto, na companhia das almas que por ali vagueavam, usava para esclarecer as ideias. Para refletir sobre a vida. Otto estava numa fase onde lhe surgiam várias e várias perguntas sobre tudo. Sobre a existência humana era o que mais gostava de refletir. Se perguntava sempre qual era o objetivo crucial da vida. Pensava bastante sobre sua indagação e por fim, depois de um tempo, chegava a conclusão de que não existia realmente um objetivo. A vida deveria ser vivida conforme cada qual decidisse viver. E o fim para ele era bastante óbvio. Acabava ali. Como todos que passaram e passavam a ter sua moradia no cemitério. Já Cíntia, quando lhe acompanhava durante suas expedições pelo cemitério, havia aprendido com os pais que existia vida além-túmulo. Cada qual tinha sua ideia sobre o fim da existência e respeitavam o pensar de cada um e não discutiam.
Passando em frente ao cemitério, Otto teve a ideia de cortar caminho pela casa de descanso das almas, como ele costumava se referir carinhosamente ao cemitério municipal. Seria mais rápido para chegar a outra extremidade do bairro onde residia sua namorada. Otto ia atravessando o cemitério pacientemente. Estava sem pressa, tinha a noite toda para estar junto da namorada. Estava sóbrio, pois não bebia nada alcoólico, ao contrario de seus amigos que eram uns beberrões, e na festa, haviam feito a festa, literalmente. Mesmo Otto não ter tomado nada que desestabilizasse seus sentidos, percebeu que estava precisando respirar ar livre e caminhar um pouco. Estava sentindo mau estar. O local fechado da festa tinha-o deixado um pouco desconfortável. Otto tinha claustrofobia. Não precisava ser um local minúsculo fechado para deixa-lo em mau estado. O fato de ficar muito tempo num local fechado por muito tempo, era suficiente para lhe causar mau estar. Ainda mais, no meio de multidões. Otto era um cara um tanto quanto complicado. Isso até seus pais costumavam dizer.
Aquela noite lhe pareceu que o cemitério estava mais sombrio que outras vezes a noite, que ousou passar entre os túmulos com seus amigos, após uma festa ou outra na casa de algum conhecido. As luzes que restavam e iluminavam precariamente os trechos do cemitério estavam rareadas. Havia pouca iluminação. Muito menos do que Otto lembrava.
Quando Otto estava alcançando mais ou menos a metade do trajeto que deveria atravessar, viu um vulto que se esgueirou pela noite sombria em direção ao fundo de um mausoléu, como alguém que estivesse se escondendo. O mausoléu em questão, estava mais ou menos a uns vinte metros de distância, no campo de visão de Otto. O mausoléu, Otto reconheceu pela cor do granito. Era o mausoléu de um tio de Cíntia, que havia falecido há bastante tempo. Lembrava bem, às vezes que estiveram ali lhe trazendo flores. Otto assustado, permaneceu por um tempo parado e atento ao barulho que vinha da direção do mausoléu. Algo se mexia naquela direção, não restava dúvida. “O que seria?” Otto se perguntou.
Estava acostumado a passar por ali e nunca havia sido surpreendido por nada. Pelo que ele sabia, não havia coveiro ali a noite e muito menos vigia. O cemitério estava largado e abandonado. O que ali existia eram apenas os túmulos decorados com flores e velas com suas chamas bruxuleantes, ardendo em cima de uma lápide ou outra que, geralmente era acesa por um parente antes de a noite tomar seu lugar, enegrecendo o que foi por horas, lugar de luz.
Otto sentiu o ritmo de seu coração acelerar. Os batimentos cardíacos se alterando. Logo em cima do mausoléu, existia um pequeno poste, que em sua extremidade suportava uma lâmpada em estado lusco-fusco, velha e suja. Assim como o próprio cemitério. Em determinado momento se apagava e logo acendia novamente. Fazendo um crepitar que se misturava ao som que provinha detrás do mausoléu, onde se podia ver a sombra de uma figura que imitava a estatura de um ser humano. Os movimentos pareciam de alguém que possuía um objeto que poderia ser uma pá e ali escavava. Otto, devagar e cauteloso, sentindo cada vez mais o desconforto gerado pelo medo. Deu alguns passos na direção do mausoléu, imaginando dar a volta e surpreender o ser desconhecido por trás. Assim ele fez.
Otto pensou que poderia ser um ladrão de túmulos. Ali na cidade, nunca havia tido um, mas já ouvira notícias de terem pego esse tipo de bandido em outras cidades vizinhas.
Conforme Otto foi se aproximando, conseguiu identificar melhor o vulto e o som que vinha detrás do mausoléu. Otto foi chegando cada vez mais perto. De onde já estava, conseguia ver o que o estava assustando. Era alguém com uma capa preta, com a cabeça coberta, que se estendia até os pés. Estava de costas para Otto. Ali, Otto pode ver que o ser a sua frente, cavava com uma pá, como ele deduziu, a grama defronte ao mausoléu. Otto teve a ideia de indagá-lo do por que da ação. Mas achou perigoso. Imaginou, fosse quem fosse aquele ser a sua frente, atacando-o. Isso seria pior. Aquele ser a sua frente era alto e aparentava saudável e com estruturas de um atleta. Otto observou por um tempo a destreza com que a criatura desferia os golpes de pá contra o solo gramado e percebeu sua força e temeu não conseguir ganhar daquele ser numa briga, caso ele partisse para cima dele. Achou melhor derrubar o suposto ladrão de túmulo pelas costas. Na traição. Ainda não havia conseguido identificar com precisão e clareza se o ser se tratava de um homem ou não. Otto lembrou dos livros que lera sobre mitologia. Havia lido sobre seres mitológicos. Sendo esses muito fortes e ferozes. Pensou em lobisomem e outros seres fantástico. Tudo isso pensou, olhando para as costas da criatura a sua frente que se movia aos movimentos com a pá freneticamente. Otto percebeu que aquelas memórias não ajudaram em nada, apenas serviram para aumentar seu medo, que lhe fazia naquele instante, tremer as mãos, as pernas. Otto percebeu por fim, que todo seu corpo estava tremendo. Pensou que a criatura a sua frente, que até aqueles instantes não havia notado sua presença, não teria chance caso ele lhe atacasse sem que ele percebesse. Iria derrubá-lo com o pedaço de galho espesso que ele conseguira próximo a uma catacumba, obviamente, depois que conseguisse coragem suficiente para executar tal ato.
Otto se preparou. Chegou um paço mais próximo. Juntou todo o resquício de coragem que encontrou em seu ser. Um restante de coragem que ainda não havia deixado seu corpo magro e juvenil e se aplumou. Apertou com firmeza o pedaço de galho e levantou-o bem alto. Quando foi desferir o golpe, que imaginou que iria derrotar o ser indefinido a sua frente, a criatura se virou surpreendendo-o, antes de resultar o golpe. Otto levou o maior susto da sua vida. Por um tempo ficou paralisado. Sem reação. Não conseguia acreditar no que estava vendo. “Não é possível!” Otto exclamou para si mesmo, sentindo o gosto do medo que nessa altura já havia tomado conta de todo seu corpo. Aquilo não estava acontecendo. Ele estava certo no que via. Mas era inacreditável. Otto, acreditando ou não, ele reconheceu a criatura que estava a sua frente, sendo exatamente o tio falecido de Cíntia.
Otto, tremendo e desorientado, de olhos arregalados e com o coração quase na mão, saltando no peito descontroladamente, deixou cair o pedaço de galho no chão e correu desesperadamente em direção a casa de sua namorada. Deixando para trás o homem que ele e Cíntia haviam lhe levado flores várias ocasiões.
Chegado na casa de sua namorada, Otto subiu os degraus, que davam acesso a área que se estendia as duas extremidades frontais da casa, dois em dois a galope. Quando alcançou a entrada da frente, passou a bater desesperadamente a porta. Esbaforido e com muito medo. Parecia que a demora de sua namorada para abrir a porta, ajudava no aumento do desespero, que lhe estava tomando conta.
Passou a socar a porta com as mãos trêmulas e todo o corpo também. Conforme batia a porta, olhava para trás com mais medo, imaginando que o espírito do tio de sua namorada pudesse estar lhe seguindo. "Abra Cíntia, por favor! Você não vai acreditar. Abre, logo! Preciso te contar." Havia desespero na voz de Otto. Quem o ouvia naquela hora, precisamente diria que ele precisava de ajuda. Quando ele não mais aguentava esperar pelo abrir da porta da frente, deu a volta pelo terreno, para tentar entrada pela porta dos fundos, a da cozinha. Ali chegado, ele a forçou, tentando abri-la, sentiu um pouco de conforto e alívio, pois ela estava sem tranca. Abriu-a com pressa, com toda sua ânsia em se livrar de estar sozinho fora de abrigo. Passou pela cozinha correndo, cada vez mais afobado e amedrontado, foi em direção a sala de estar aos berros, gritando para Cíntia. Quando chegou na sala de estar, para seu desconsolo e, aumento de seu desespero, deu de cara novamente com o tio do cemitério de sua namorada, que lhe encarava com um semblante sério, sisudo. Só que agora, estava sem a capa preta. Vestido num moletom. "Não! Não! Isso não esta acontecendo comigo!” Gritou Otto com as mãos sobre a cabeça e com o semblante denotando pânico. "Não pode ser!" Otto por fim conseguir dizer, e desmaiou.
Quando Otto voltou a si, quase teve outro desmaio, se não fosse Cíntia estar ali, lhe segurando a mão, pois o tio de sua namorada estava ali lhe olhando com olhar de preocupação, mas Cíntia foi logo lhe dizendo que estava tudo bem. Que ele não precisava ter mais medo.
Conforme foi estabelecendo melhoria em seu quadro de ânimo, Otto foi se levantando, antes levou mais um susto quando percebeu que ali, tinha mais um tio de Cíntia, o da capa preta desta vez.
Lhe deram água e lhe explicaram a confusão.
Aqueles dois tios, eram os outros irmãos gêmeos do outro tio falecido. Cíntia não havia lhe contado sobre esses outros dois tios que moravam em outro estado e que há oito anos não lhes visitavam. Estavam ali de passagem na cidade e iriam ao encontro dos pais de Cíntia no retiro. "O que que ele estava fazendo no cemitério, então?" Conseguiu perguntar Otto, já mais calmo. Eles sempre que vem a cidade, plantam uma flor na frente do mausoléu de seu irmão falecido. É uma forma de mostrar carinho e dizer, de alguma forma ao irmão deles, que estão sempre lembrando dele. E como eles não passarão pela cidade na volta, e já estão de partida, resolveram plantar a flor agora a noite. "Ah sim! Muito melhor assim” Disse Otto com um meio sorriso, olhando mais tranquilo para os irmãos, outros tios de Cintia que agora estava conhecendo. Um deles, o da capa preta, acabou dizendo em tom brincalhão: "por pouco não teríamos mais um ente querido para levar flores." Todos riram deliciosamente.
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